sexta-feira, 21 de junho de 2013

Noel Rosa Cronista de seu Tempo.

        Professor Thiago:
Cronista de seu tempo

      Conversa de Botequim
(1935)

Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada 
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Se você ficar limpando a mesa
Não me levanto nem pago a despesa
 
Vá pedir ao seu patrão
Uma caneta, um tinteiro
Um envelope e um cartão
Não se esqueça de me dar palitos
E um 
cigarro pra espantar mosquitos
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste umas revistas
Um isqueiro e um cinzeiro

Telefone ao menos uma vez
Para três quatro, quatro, três, três, três
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva 
Aqui pro nosso escritório
Seu garçom me empresta algum dinheiro
  Que eu deixei o meu com o bicheiro 
Vá dizer ao seu gerente 
Que pendure esta despesa No cabide ali em frente.
Dama do Cabaré(1934)

Foi num cabaré na Lapa 
Que eu conheci você 
Fumando cigarro,
Entornando champanhe no seu soirée
Dançamos um samba,
Trocamos um tango por uma palestra
Só saímos de lá meia hora
Depois de descer a orquestra
Em frente à porta um bom carro nos esperava
Mas você se despediu e foi pra casa a pé 
No outro dia lá nos Arcos eu andava À procura da Dama do Cabaré
Eu não sei bem se chorei no momento em que lia A carta que recebi, não me lembro de quem Você nela me dizia que quem é da boemia
Usa e abusa da diplomacia
Mas não gosta de ninguém.
Três Apitos(1933)

Quando o apito da fábrica de tecidos 
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
Ou está interessada 
Em fingir que não me vê
Você que atende ao apito de uma chaminé de barro
Porque não atende ao grito
Tão aflito 
Da buzina do meu carro Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
 
Não faz fé no agasalho
Nem no frio você crê
Mas você é mesmo artigo que não se imita 
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você 
Nos meus olhos você lê Que eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente
 
Impertinente
Que dá ordens a você
Sou do sereno poeta muito soturno
Vou virar guarda-noturno
E você sabe porque
Mas você não sabe 
Que enquanto você faz pano
Faço junto ao piano
Estes versos pra você.
Século do Progresso(1937)

A noite estava estrelada
Quando a roda se formou
 
A lua veio atrasada
E o samba começou
Um tiro a pouca distância
No espaço forte ecoou
 
Mas ninguém deu importância
E o samba continuou
Entretanto ali bem perto
Morria de um tiro certo 
Um valente muito sério
Professor dos desacatos
 
Que ensinava aos pacatos
O rumo do cemitério
Chegou alguém apressado
Naquele samba animado
Que cantando dizia assim: 
No século do progresso  O revólver teve ingresso Pra acabar com a valentia
Um tiro a pouca distância...

Onde Está a Honestidade?(1933)

Você tem palacete reluzente
Tem jóias e criados à vontade
Sem ter nenhuma herança ou parente
Só anda de automóvel na cidade...

E o povo já pergunta com maldade:
Onde está a honestidade?
Onde está a honestidade?

O seu dinheiro nasce de repente
E embora não se saiba se é verdade
Você acha nas ruas diariamente
Anéis, dinheiro e felicidade...
 
Vassoura dos salões da sociedade
Que varre o que encontrar em sua frente
Promove festivais de caridade
Em nome de qualquer defunto ausente...

O Orvalho Vem Caindo(1933)
Noel Rosa

O orvalho vem caindo, vai molhar o meu chapéu
e também vão sumindo, as estrelas lá do céu
Tenho passado tão mal 
A minha cama é uma folha de jornal 
Meu cortinado é um vasto céu de anil E o meu despertador é o guarda civil
(Que o dinheiro ainda não viu!) 
minha terra dá banana e aipim
Meu trabalho é achar quem descasque por mim  
(Vivo triste mesmo assim!)  
O orvalho vem caindo, vai molhar o meu chapéu
e também vão sumindo, as estrelas lá do céu
Tenho passado tão mal
A minha cama é uma folha de jornal
  A minha sopa não tem osso e nem tem sal
Se um dia passo bem, dois e três passo mal
 
 
Com Que Roupa?(1929)

Agora vou mudar minha conduta
Eu vou pra luta pois eu quero me aprumar 
Vou tratar você com a força bruta Pra poder me reabilitar
Pois esta vida não está sopa  E eu pergunto: com que roupa?
 
Com que roupa que eu vou
Pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou
Pro samba que você me convidou?

Agora eu não ando mais fagueiro Pois o dinheiro não é fácil de ganhar
Mesmo eu sendo um cabra trapaceiro
Não consigo ter nem pra gastar
Eu já corri de vento em popa
Mas agora com que roupa?
 
Com que roupa que eu vou
Pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou
Pro samba que você me convidou?

Eu hoje estou pulando como sapo
Pra ver se escapo desta praga de urubu 
Já estou coberto de farrapo
Eu vou acabar ficando nu
Meu terno já virou estopa
E eu nem sei mais com que roupa
 
Com que roupa que eu vou
Pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou
Pro samba que você me convidou?
São Coisas Nossas(1932)

Queria ser pandeiro 
Pra sentir o dia inteiro
A tua mão na minha pele a batucar
Saudade do 
violão e da palhoça
Coisa nossa, coisa nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas, 
São nossas coisas,
São coisas nossas!

Malandro que não bebe,
Que não come,
Que não abandona o samba 
Pois o samba mata a fome,
Morena bem bonita lá da roça, 
Coisa nossa, coisa nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas, 
São nossas coisas,
São coisas nossas!

Baleiro, jornaleiro
Motorneiro, condutor e passageiro,
Prestamista e o vigarista
E o bonde que parece uma carroça
,
Coisa nossa, muito nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas, 
São nossas coisas,
São coisas nossas!

Menina que namora
Na esquina e no portão
Rapaz casado com dez filhos, sem tostão,
Se o pai descobre o truque dá uma coça 
Coisa nossa, muito nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas, 
São nossas coisas,
São coisas nossas!
Feitiço da Vila


Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila 
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos,
Do arvoredo e faz a lua,
Nascer mais cedo.
Lá, em Vila Isabel, Quem é bacharel
Não tem medo de bamba.
São Paulo dá café,
Minas dá leite,
E a Vila Isabel dá samba.
A vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem 
Tendo nome de princesa
Transformou o samba
Num feitiço descente 
Que prende a gente
O sol da Vila é triste
Samba não assiste 
Porque a gente implora: "Sol, pelo amor de Deus,
não vem agora
que as morenas
vão logo embora”
Eu sei tudo o que faço
sei por onde passo
paixão não me aniquila
Mas, tenho que dizer,
modéstia à parte,
meus senhores,
Eu sou da Vila!
Não Tem Tradução

O cinema falado é o grande culpado da transformação
Dessa gente que sente que um barracão prende mais que o xadrez
Lá no morro, seu eu fizer uma falseta
A Risoleta desiste logo do francês e do Inglês
A gíria que o nosso morro criou
Bem cedo a cidade aceitou e usou
Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote
Na gafieira dançar o Fox-Trote
Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição
Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês
Tudo aquilo que o malandro pronuncia
Com voz macia é brasileiro, já passou de português
Amor lá no morro é amor pra chuchu
As rimas do samba não são I love you
E esse negócio de alô, alô boy e alô Johnny
Só pode ser conversa de telefone..


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